domingo, 18 de dezembro de 2016

Vergonha também é sentimento

  10:28. Parece uma boa hora para me arrepender. Pouco antes das 9, acordei daquele jeito preguiçoso bem característico de quem fez o que não devia. O quarto estava pouco iluminado, o suficiente para que eu visse a bagunça em que tinha me metido. 
  Sentei-me na cama. No chão, jaziam as roupas do dia anterior. Ao meu lado, ele dormia de modo sereno. Sabia que, ao acordar, iria me encarar com grandes olhos verdes. Pelo menos era o que eu lembrava. O quê eu tinha com olhos verdes, afinal? 
  A conhecida dor de cabeça já me acordava com suas pontadas. Maldito champanhe. Devia tê-lo dispensado enquanto podia. Tentando fazer o mínimo barulho possível, enrolei-me no lençol e parti na busca de um chuveiro. Definitivamente, precisava de um banho. 
  Ao entrar no banheiro, dei de cara com o espelho. Por incrível que pareça, eu estava ridiculamente apresentável. A maquiagem um pouco borrada, é verdade, e não havia mais a tonalidade do batom em meus lábios. Mas os cachos pendiam bagunçados nos ombros e não identificava vestígios de minhas olheiras. 
  Abri todas as gavetas em busca de um elástico. Ao encontrá-lo, enrolei o cabelo em um coque bagunçado e entrei no chuveiro. Apenas água gelada. Talvez eu merecesse. Sequei-me com a única toalha disponível, e a vergonha começava a ruborizar minhas bochechas. O que eu tinha feito? 
  Entrei no quarto, recolhi minhas roupas e vesti-as em silêncio. Onde é que estava meu sapato? Encontrei-os debaixo de algumas almofadas. Será que eu devia deixar um bilhete? Mas afinal, o que é que eu iria escrever? Melhor sair enquanto não havia ninguém acordado para me questionar a respeito. Dei uma última olhada para seu cabelo loiro e tentei registrar na mente todo aquele ambiente. 
  Saí na ponta dos pés, rumo à luz do dia que, mais tarde, eu iria descobrir que me julgaria. 

Nenhum comentário:

Postar um comentário