terça-feira, 31 de janeiro de 2017

Sucessão de "talvez"

   Eu estava esperando por um bom começo de 2017, mas acabei recebendo um 2016 s. Que m. Junto com as contantes dores de cabeça e ocasionais enjoos, veio também o desânimo. Avisaram que ele chegaria. Talvez pela montanha de medicamentos, talvez pela mágoa de ver alguém querido sofrer. Sinto-me insuficiente. Não basto para resolver os problemas. 
    Junto com tudo isso, veio uma saudade que até então eu não tinha sentido. Estava tudo bem, superei de uma maneira tranquila. Tinha tantas outras coisas para me preocupar...mas agora, com tanto tempo livre e tão pouca disposição para gastá-lo, minha mente parece propensa a pensar no que já deveria estar no passado. Tenho um sentimento que vem desde o estômago e sobe até minha garganta, onde fica entalado. Tentei explicar o que era, mas como dizer? Sinto falta de meu amigo, e não sei se ele sente a minha. Será que ele ao menos pensou em mim depois do que nos aconteceu? 
    Tão ínfimo pensar nisso agora...tenho problemas muito maiores do que os do coração. Não há distração para isso. Já limpei o quarto, andei em parques, fui ao cinema, saí com minha amiga. Mas então chegam as dores e a incrível vontade de não levantar da cama. Tenho insônia. 
    Tudo anda um pouco cinza, menos os comprimidos que me atacam de forma violenta. Tão vermelhos. Se ao menos fizessem efeito...talvez eu parasse de gastar horas na cama ouvindo um velho vinil de Vivaldi. Talvez eu aproveitasse os dias que restam. Talvez eu cuidasse de quem precisa de mim. Talvez eu fosse atrás dele. Só talvez. 

segunda-feira, 2 de janeiro de 2017

Cinza infinito

   O texto de hoje começa com apenas uma palavra: câncer. Pouco simpático, não é mesmo? Também acho. A maldita palavra que me faz questionar se é apenas um obstáculo ou uma sentença. De todo modo, as dificuldades continuam aparecendo nos dias vazios.
    Doença infame. Qual sua necessidade? Pergunta um tanto quanto existencial, sei disso, mas tais questões devem ser levantadas. Afinal, para que serve uma multiplicação anormal de células? Malditas partículas. Por que não se comportam de maneira apropriada?
    Seria prudente fazer algo mais produtivo com o meu tempo, mas encontro dificuldades até em levantar da cama. Meu psicológico fraco não permite muita coisa. Restou ouvir todos os discos antigos que ganhei de natal e tentar manter a leitura em dia. As palavras têm perdido o significado. Nem sei como estou conseguindo escrever mantendo o mínimo de sentido.
    É meu dever manter os pensamentos positivos, mas tal missão é tão difícil. Como não esperar pelo pior? Ainda não fui capaz de decidir se, neste momento, a solidão cai bem. Eu deveria andar sozinha mais vezes para descobrir. Gosto do ar cinza da cidade. Junto com os prédios conza, as ruas cinza, os carros cinza, as pessoas cinza. Qual será a cor dos tumores?
   Não sei mais o que dizer e, sinceramente, perdi a vontade de falar. Deixarei que o silêncio responda por mim.