domingo, 13 de dezembro de 2015

Até breve...

Estou quebrada novamente. Parabéns, você conseguiu. Conseguiu acabar com a minha postura confiante, destruir meus sonhos e negar todas as minhas esperanças. Satisfeito?
Eu acreditei no que me dizia...acreditei que tudo daria certo, que poderíamos arrumar o que não nos satisfazia, que seríamos felizes. Afinal, você só me pediu tempo. Mas tempo é tudo que eu não tenho.
Não o tenho porque uma voz psicótica grita em minha mente e me faz acreditar que acabou. Que nada mais faz sentido e que não há nada a se fazer. Talvez ela esteja certa.
E ela me convenceu de que estou cansada de te amar. Cansada de me dar por inteira, de te colocar na frente das minhas necessidades, e ter que me contentar com seus restos.Eu me tornei a pessoa que você precisa, e não recebi nada em troca. Nada além de desprezo, antipatia e indiferença. 
Então eu decidi te esquecer. Quero ver o que essa dor é capaz de fazer comigo, e vou permitir que ela me deixe desfigurada. Não me importo. Quero ver até onde você consegue me fazer sofrer. 
Para tanto, afastei todos aqueles que amo. Não posso permitir que me vejam assim...não quero que se lembrem de mim desse jeito. Essa não é a pessoa que conheceram.
Sei que o fim está próximo...posso vê-lo repousar ao meu lado. Não tenho medo dele. Sei que é o único jeito para te deixar, a única saída. E esse relógio bate em meus ouvidos; até quando suportarei sentir? Até quando vou esperar para colocar um ponto final?
Talvez você tenha me iludido agora, e não cheguemos a ficar juntos novamente. Tudo Bem. Nos vemos no inferno. 

sexta-feira, 11 de dezembro de 2015

Embora não possa te chamar de meu...

Tudo o que eu mais quero é entender o que se passa aqui dentro. Sinto que tenho um buraco negro, um grande abismo, o fundo do oceano no lugar do coração. Mas, estranhamente, esse é o único escuro que não sinto medo.
Sei que se mergulhar nos mais profundos sentimentos, encontrarei você: minha pequena fonte de luz, minha porta para a felicidade, minha fuga da realidade, a única coisa boa que guardo em mim. A única lembrança que me faz sorrir. Meu sonho.
Às vezes me pergunto se isso é saudade ou costume de pensar em você. Talvez os dois, ainda não consegui decidir. Mas de uma coisa tenho certeza: é em você que penso ao ouvir cada nota de piano; é para você que escrevo cartas que falam sobre mim, mesmo sem jamais enviá-las; é pensando em você que me arrumo; é em você que meus sonhos são baseados. 
Você é minha mola, meu combustível, minha fonte de energia. Meu passado, presente e futuro. Minha droga, meu vício. Você é tudo, e eu não sou nada. Nada além de uma simples hospedeira desse sentimento que corrói, tortura, sufoca. Nada além do que sua maior admiradora. Nada além de sua.


terça-feira, 1 de dezembro de 2015

Minha dose de você

    Deitada em minha cama, eu encarava os reflexos da fria noite de junho que eram projetados no meu teto, sem ânimo. As lágrimas escorriam pela minha face e atingiam os tecidos que me envolviam, encharcando-os. Olhei para o relógio em meu criado-mudo, e os números fluorescentes denunciavam que já passava de meia noite. Em algumas horas eu deveria acordar para repetir a monotonia dos meus dias no inferno chamado colégio, o lugar que eu tanto evitava há algumas semanas. Voltei minha atenção para o teto. As luzes pareciam convidar as sombras para uma estranha dança, e, juntas, criavam uma arte um tanto quanto peculiar em meu quarto. Eu já não estava raciocinando muito bem à essa altura.
Sentei-me. Podia ouvir os fracos ossos que me sustentavam clamando por descanso, o que eu me recusava a dar. Levantei devagar e caminhei até a escrivaninha. Abri a terceira gaveta e tirei a quase vazia garrafa com um liquido cor de âmbar, que tanto me fizera companhia nas demais noites sombrias. Abri a segunda gaveta, e de lá tirei uma pequena lata cilíndrica. Dentro dela, estavam minhas novas muletas. Separei quatro comprimidos brancos, e coloquei o recipiente em seu devido lugar. Como de costume, um gole para cada cápsula. Um. Dois. Três. Quatro. E um quinto gole, só para garantir. Busquei entre os discos que ali estavam, o mais apropriado para o momento. Logo o ambiente foi tomado por delicadas notas de piano.
Encarei-me no espelho. Eu usava sua velha camisa xadrez, que ainda continha resquícios do seu perfume. Ela ficava desproporcionalmente grande em mim, mesmo você tendo apenas dez centímetros a mais. Aquele azul não realçava meus olhos cor de mel como fazia com a sua pequena imensidão verde, mas eu insistia em vesti-lo. Era o mais próximo que eu tinha do seu abraço.
Olhei mais atentamente. Estava pelo menos quatro quilos mais magra, e alguns tons mais pálida do que o de costume. As olheiras escuras me davam um ar cadavérico. Eu definitivamente não era mais a menina saudável que você conheceu. E a limitada beleza que eu tinha foi deixada no passado, junto com todas as boas lembranças. Aquele reflexo me enojava, intensificando meu caráter autodestrutivo.
Num ímpeto, abri meu armário e procurei um embrulho em papel pardo, atrás de todas as roupas. Desembrulhei-o, e os cacos de vidro brilharam em minhas mãos. Alguns ainda estavam sujos, outros apenas esperavam para serem usados. Escolhi o mais pontiagudo dentre os que estavam limpos, e guardei o restante. Com movimentos rápidos e precisos, mutilei minhas pernas repetidas vezes.
O vermelho dominou meu corpo, junto com a dor. As antigas feridas nem estavam cicatrizadas, e logo sofreram um novo ataque. Poucos compreendiam os motivos para tal ato, mas eram tão simples: a dor física é suportável, plausível, passageira. A dor espiritual tortura, destrói, corrói a alma. E, naquele momento, eu precisava me machucar por fora para esquecer o que me machucava por dentro.
Com um baque surdo, despenquei. Aos poucos, meu raciocínio ficava mais lento e impreciso, e minha visão mais turva. O chão era tão gélido perto da minha pele; coisa que eu jamais percebera. Pode ser que aquele quarto estivesse realmente diferente: mais frio, úmido e sufocante; ou talvez o olhar do inquilino é que tenha mudado. As paredes ficavam tão nuas sem nossas fotos, ou seus desenhos, ou cada pequena lembrança de nosso passado juntos. Sentiam sua ausência tanto quanto eu, e pareciam gritar naquele silêncio que me ensurdecia. Escolhi cuidadosamente o espaço mais limpo e, com os dedos ainda sujos de sangue, desenhei a letra “A” com o fluido. “A” de anarquia. “A” de arrependimento. O “A” do seu nome.
A musica soava leve no ar, embebedando-me. Voltei minha atenção para meu peito, onde pendia delicadamente um anel num colar. A fina circunferência dourada com um cristal incrustado, que provavelmente te deu um belo trabalho para encontrar. O que você me deu pouco antes do natal, junto com a velha máquina de escrever, dizendo que nos uniria. Minha aliança. Ela continuava com o mesmo brilho do dia em que me entregou aquela caixinha preta, enquanto que a sua estava completamente corroída e opaca. Parecia até uma representação de nossos sentimentos. Até nisso somos divergentes.
Levantei, dessa vez mais decidida e possuída pela abstinência cada vez mais forte. Caminhei vagarosamente até a pequena varanda, e encarei o céu. As estrelas brilhavam longe: pequenos redutos de esperança distribuídos pela imensidão. Eu já não tinha mais estrelas dentro de mim. Eu era um imenso buraco negro, uma rua sem saída, uma doença sem cura. Eu era inteiramente sua. E você não era mais meu.
Fui até o parapeito e sentei-me na grade, com dificuldade para me equilibrar. O vento batia em minhas pernas, esfriando-as. Meus pés balançavam enquanto encaravam o abismo. O problema devia realmente ser comigo. Por qual outro motivo você me deixaria sem explicação, de uma hora para outra?  Afinal, eu não sou tão bonita assim, não de perto pelo menos. Quanto mais as pessoas se aproximam, mais percebem o quão feia eu sou por dentro. Será que você enxergou isso em mim? Você terminou comigo, mas eu não terminei de te amar.
Ou talvez eu tenha errado desde o começo, ao mergulhar em amores rasos demais. Não que isso importasse agora. Esses sentimentos eram roucos, duros, irritados, enérgicos, comprimidos há tanto tempo. Perderam o sentido, assim como minha existência. Ouvi as últimas notas do piano. Com lágrimas nos olhos, inclinei-me, mergulhando por uma ultima vez na escuridão, conseguindo, finalmente, te deixar para trás.


Eles


    Eu andava pela rua devagar, sem ânimo suficiente para o passo seguinte. O céu mostrava-se pálido, e o espaço estava movimentado, barulhento, encobrindo-me na multidão. Era como se esperasse por algo, ou mesmo por alguém. Ouvi seus passos apressados atrás de mim, e sua mão foi de encontro à minha cintura, segurando-a. “Fugindo de novo?”, perguntou-me. Talvez eu realmente estivesse, mas balencei a cabeça negativamente. Afinal, por qual motivo eu estaria fugindo de alguém que me faz tão bem? Ele mal sabia que deixava meu mundo em silêncio, dando-me a paz necessária para ouví-lo.
   Meus dedos se entrelaçaram aos seus e dali não saíram mais durante nossa curta caminhada até minha casa. Eram os poucos metros mais completos do meu dia. Conversávamos sobre tudo, ríamos juntos, brincávamos. Éramos duas crianças crescidas que se recusavam a parar de sonhar.
   Ao chegarmos, minha felicidade dissipou-se em parte. A despedida estava próxima, e eu tinha total consciência de que ela não era definitiva. Ainda sim, insistia em sofrer naqueles poucos segundos antes do adeus. Também era nítido seu sofrimento. Aquele olhar profundo me encarava interrogativamente, como que esperando por um convite para entrar; mesmo sabendo que não seria possível.
   Ele era o ar, e eu o vento. Era era água, e eu era onda. Ele era grave, e eu aguda. Era sereno, e eu confusa. Ele era paz, e eu era a Guerra. Opostos. Assimétricos. Duas faces de um mesmo corpo, duas partes de um só. Complementares.
   Abraçou-me forte, recusando-se a me soltar. E por entre aquela consciliação, seus lábios encontraram meu ombro, meu pescoço, minha orelha. O hálito quente carregando um “eu te amo” inaudível, delicado, eficaz. Afastei-me. Esperei por um sorriso ou pela risada sempre constante, mas nada. Seriedade. Ele aguardava minha implacável resposta.
   Beijei-o, e nada mais precisava ser dito. Após os segundos de doce ternura, parti, deixando toda a minha existência para trás.

   Olhei para o lado e não a vi. Percebi no mesmo instante que ela havia partido, e que tinha pouco tempo para alcançá-la. Desviei da multidão e encontrei o que procurava. Uma menina peculiar que insistia em andar olhando para os próprios pés; talvez pelo cansaço, ou por temer que alguém se apaixonasse por aqueles olhos grandes.
   Corri o máximo que pude e a alcancei, segurando-a pela cintura. “Fugindo de novo?”, perguntei. Já sabia a resposta, pois conhecia seus hábitos e suas manias; mas não podia perder a chance de ver aquele sorriso debochado feito diretamente para mim. Segurei sua mão, e caminhei ao seu lado.
   A bagunça irradiava de seu corpo, passando para mim  por meio dos dedos que tanto se encaixavam aos meus. Será que algum dia eu conseguirei tranquilizá-la?
   Chegamos à porta de sua casa e eu perdi o fôlego. Precisava atrasá-la o máximo possivel, afinal, qualquer minuto a mais era uma vitória. Envolvi em meus braços a menina que costumo chamar de princesa, e inalei seu perfume floral. A vontade de contra-lhe a verdade se apoderou de mim até eu não conseguir me conter. Saiu como um sussuro, e por um segundo pedi para que ela não tivesse me escutado.

    Mas não; ela se desprendeu do meu abraço e dirigiu-me aquele olhar petulante. Não sei o que esperava de mim; tinha acabado de me entregar à ela totalmente desprotegido, frágil, curioso por sua resposta.  Ela nada me disse; seus lábios roçaram os meus e deram-me um beijo firme e decidido. Não era o que eu esperava, mas sim tudo que eu precisava. Relutante, ela se desviou. Novamente, ela estava fugindo de mim.