terça-feira, 1 de dezembro de 2015

Eles


    Eu andava pela rua devagar, sem ânimo suficiente para o passo seguinte. O céu mostrava-se pálido, e o espaço estava movimentado, barulhento, encobrindo-me na multidão. Era como se esperasse por algo, ou mesmo por alguém. Ouvi seus passos apressados atrás de mim, e sua mão foi de encontro à minha cintura, segurando-a. “Fugindo de novo?”, perguntou-me. Talvez eu realmente estivesse, mas balencei a cabeça negativamente. Afinal, por qual motivo eu estaria fugindo de alguém que me faz tão bem? Ele mal sabia que deixava meu mundo em silêncio, dando-me a paz necessária para ouví-lo.
   Meus dedos se entrelaçaram aos seus e dali não saíram mais durante nossa curta caminhada até minha casa. Eram os poucos metros mais completos do meu dia. Conversávamos sobre tudo, ríamos juntos, brincávamos. Éramos duas crianças crescidas que se recusavam a parar de sonhar.
   Ao chegarmos, minha felicidade dissipou-se em parte. A despedida estava próxima, e eu tinha total consciência de que ela não era definitiva. Ainda sim, insistia em sofrer naqueles poucos segundos antes do adeus. Também era nítido seu sofrimento. Aquele olhar profundo me encarava interrogativamente, como que esperando por um convite para entrar; mesmo sabendo que não seria possível.
   Ele era o ar, e eu o vento. Era era água, e eu era onda. Ele era grave, e eu aguda. Era sereno, e eu confusa. Ele era paz, e eu era a Guerra. Opostos. Assimétricos. Duas faces de um mesmo corpo, duas partes de um só. Complementares.
   Abraçou-me forte, recusando-se a me soltar. E por entre aquela consciliação, seus lábios encontraram meu ombro, meu pescoço, minha orelha. O hálito quente carregando um “eu te amo” inaudível, delicado, eficaz. Afastei-me. Esperei por um sorriso ou pela risada sempre constante, mas nada. Seriedade. Ele aguardava minha implacável resposta.
   Beijei-o, e nada mais precisava ser dito. Após os segundos de doce ternura, parti, deixando toda a minha existência para trás.

   Olhei para o lado e não a vi. Percebi no mesmo instante que ela havia partido, e que tinha pouco tempo para alcançá-la. Desviei da multidão e encontrei o que procurava. Uma menina peculiar que insistia em andar olhando para os próprios pés; talvez pelo cansaço, ou por temer que alguém se apaixonasse por aqueles olhos grandes.
   Corri o máximo que pude e a alcancei, segurando-a pela cintura. “Fugindo de novo?”, perguntei. Já sabia a resposta, pois conhecia seus hábitos e suas manias; mas não podia perder a chance de ver aquele sorriso debochado feito diretamente para mim. Segurei sua mão, e caminhei ao seu lado.
   A bagunça irradiava de seu corpo, passando para mim  por meio dos dedos que tanto se encaixavam aos meus. Será que algum dia eu conseguirei tranquilizá-la?
   Chegamos à porta de sua casa e eu perdi o fôlego. Precisava atrasá-la o máximo possivel, afinal, qualquer minuto a mais era uma vitória. Envolvi em meus braços a menina que costumo chamar de princesa, e inalei seu perfume floral. A vontade de contra-lhe a verdade se apoderou de mim até eu não conseguir me conter. Saiu como um sussuro, e por um segundo pedi para que ela não tivesse me escutado.

    Mas não; ela se desprendeu do meu abraço e dirigiu-me aquele olhar petulante. Não sei o que esperava de mim; tinha acabado de me entregar à ela totalmente desprotegido, frágil, curioso por sua resposta.  Ela nada me disse; seus lábios roçaram os meus e deram-me um beijo firme e decidido. Não era o que eu esperava, mas sim tudo que eu precisava. Relutante, ela se desviou. Novamente, ela estava fugindo de mim.

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