terça-feira, 1 de dezembro de 2015

Minha dose de você

    Deitada em minha cama, eu encarava os reflexos da fria noite de junho que eram projetados no meu teto, sem ânimo. As lágrimas escorriam pela minha face e atingiam os tecidos que me envolviam, encharcando-os. Olhei para o relógio em meu criado-mudo, e os números fluorescentes denunciavam que já passava de meia noite. Em algumas horas eu deveria acordar para repetir a monotonia dos meus dias no inferno chamado colégio, o lugar que eu tanto evitava há algumas semanas. Voltei minha atenção para o teto. As luzes pareciam convidar as sombras para uma estranha dança, e, juntas, criavam uma arte um tanto quanto peculiar em meu quarto. Eu já não estava raciocinando muito bem à essa altura.
Sentei-me. Podia ouvir os fracos ossos que me sustentavam clamando por descanso, o que eu me recusava a dar. Levantei devagar e caminhei até a escrivaninha. Abri a terceira gaveta e tirei a quase vazia garrafa com um liquido cor de âmbar, que tanto me fizera companhia nas demais noites sombrias. Abri a segunda gaveta, e de lá tirei uma pequena lata cilíndrica. Dentro dela, estavam minhas novas muletas. Separei quatro comprimidos brancos, e coloquei o recipiente em seu devido lugar. Como de costume, um gole para cada cápsula. Um. Dois. Três. Quatro. E um quinto gole, só para garantir. Busquei entre os discos que ali estavam, o mais apropriado para o momento. Logo o ambiente foi tomado por delicadas notas de piano.
Encarei-me no espelho. Eu usava sua velha camisa xadrez, que ainda continha resquícios do seu perfume. Ela ficava desproporcionalmente grande em mim, mesmo você tendo apenas dez centímetros a mais. Aquele azul não realçava meus olhos cor de mel como fazia com a sua pequena imensidão verde, mas eu insistia em vesti-lo. Era o mais próximo que eu tinha do seu abraço.
Olhei mais atentamente. Estava pelo menos quatro quilos mais magra, e alguns tons mais pálida do que o de costume. As olheiras escuras me davam um ar cadavérico. Eu definitivamente não era mais a menina saudável que você conheceu. E a limitada beleza que eu tinha foi deixada no passado, junto com todas as boas lembranças. Aquele reflexo me enojava, intensificando meu caráter autodestrutivo.
Num ímpeto, abri meu armário e procurei um embrulho em papel pardo, atrás de todas as roupas. Desembrulhei-o, e os cacos de vidro brilharam em minhas mãos. Alguns ainda estavam sujos, outros apenas esperavam para serem usados. Escolhi o mais pontiagudo dentre os que estavam limpos, e guardei o restante. Com movimentos rápidos e precisos, mutilei minhas pernas repetidas vezes.
O vermelho dominou meu corpo, junto com a dor. As antigas feridas nem estavam cicatrizadas, e logo sofreram um novo ataque. Poucos compreendiam os motivos para tal ato, mas eram tão simples: a dor física é suportável, plausível, passageira. A dor espiritual tortura, destrói, corrói a alma. E, naquele momento, eu precisava me machucar por fora para esquecer o que me machucava por dentro.
Com um baque surdo, despenquei. Aos poucos, meu raciocínio ficava mais lento e impreciso, e minha visão mais turva. O chão era tão gélido perto da minha pele; coisa que eu jamais percebera. Pode ser que aquele quarto estivesse realmente diferente: mais frio, úmido e sufocante; ou talvez o olhar do inquilino é que tenha mudado. As paredes ficavam tão nuas sem nossas fotos, ou seus desenhos, ou cada pequena lembrança de nosso passado juntos. Sentiam sua ausência tanto quanto eu, e pareciam gritar naquele silêncio que me ensurdecia. Escolhi cuidadosamente o espaço mais limpo e, com os dedos ainda sujos de sangue, desenhei a letra “A” com o fluido. “A” de anarquia. “A” de arrependimento. O “A” do seu nome.
A musica soava leve no ar, embebedando-me. Voltei minha atenção para meu peito, onde pendia delicadamente um anel num colar. A fina circunferência dourada com um cristal incrustado, que provavelmente te deu um belo trabalho para encontrar. O que você me deu pouco antes do natal, junto com a velha máquina de escrever, dizendo que nos uniria. Minha aliança. Ela continuava com o mesmo brilho do dia em que me entregou aquela caixinha preta, enquanto que a sua estava completamente corroída e opaca. Parecia até uma representação de nossos sentimentos. Até nisso somos divergentes.
Levantei, dessa vez mais decidida e possuída pela abstinência cada vez mais forte. Caminhei vagarosamente até a pequena varanda, e encarei o céu. As estrelas brilhavam longe: pequenos redutos de esperança distribuídos pela imensidão. Eu já não tinha mais estrelas dentro de mim. Eu era um imenso buraco negro, uma rua sem saída, uma doença sem cura. Eu era inteiramente sua. E você não era mais meu.
Fui até o parapeito e sentei-me na grade, com dificuldade para me equilibrar. O vento batia em minhas pernas, esfriando-as. Meus pés balançavam enquanto encaravam o abismo. O problema devia realmente ser comigo. Por qual outro motivo você me deixaria sem explicação, de uma hora para outra?  Afinal, eu não sou tão bonita assim, não de perto pelo menos. Quanto mais as pessoas se aproximam, mais percebem o quão feia eu sou por dentro. Será que você enxergou isso em mim? Você terminou comigo, mas eu não terminei de te amar.
Ou talvez eu tenha errado desde o começo, ao mergulhar em amores rasos demais. Não que isso importasse agora. Esses sentimentos eram roucos, duros, irritados, enérgicos, comprimidos há tanto tempo. Perderam o sentido, assim como minha existência. Ouvi as últimas notas do piano. Com lágrimas nos olhos, inclinei-me, mergulhando por uma ultima vez na escuridão, conseguindo, finalmente, te deixar para trás.


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