Deitada em minha cama, eu
encarava os reflexos da fria noite de junho que eram projetados no meu teto,
sem ânimo. As lágrimas escorriam pela minha face e atingiam os tecidos que me
envolviam, encharcando-os. Olhei para o relógio em meu criado-mudo, e os
números fluorescentes denunciavam que já passava de meia noite. Em algumas
horas eu deveria acordar para repetir a monotonia dos meus dias no inferno
chamado colégio, o lugar que eu tanto evitava há algumas semanas. Voltei minha
atenção para o teto. As luzes pareciam convidar as sombras para uma estranha
dança, e, juntas, criavam uma arte um tanto quanto peculiar em meu quarto. Eu
já não estava raciocinando muito bem à essa altura.
Sentei-me.
Podia ouvir os fracos ossos que me sustentavam clamando por descanso, o que eu
me recusava a dar. Levantei devagar e caminhei até a escrivaninha. Abri a
terceira gaveta e tirei a quase vazia garrafa com um liquido cor de âmbar, que
tanto me fizera companhia nas demais noites sombrias. Abri a segunda gaveta, e
de lá tirei uma pequena lata cilíndrica. Dentro dela, estavam minhas novas
muletas. Separei quatro comprimidos brancos, e coloquei o recipiente em seu
devido lugar. Como de costume, um gole para cada cápsula. Um. Dois. Três.
Quatro. E um quinto gole, só para garantir. Busquei entre os discos que ali
estavam, o mais apropriado para o momento. Logo o ambiente foi tomado por
delicadas notas de piano.
Encarei-me no
espelho. Eu usava sua velha camisa xadrez, que ainda continha resquícios do seu
perfume. Ela ficava desproporcionalmente grande em mim, mesmo você tendo apenas
dez centímetros a mais. Aquele azul não realçava meus olhos cor de mel como
fazia com a sua pequena imensidão verde, mas eu insistia em vesti-lo. Era o
mais próximo que eu tinha do seu abraço.
Olhei mais
atentamente. Estava pelo menos quatro quilos mais magra, e alguns tons mais
pálida do que o de costume. As olheiras escuras me davam um ar cadavérico. Eu
definitivamente não era mais a menina saudável que você conheceu. E a limitada
beleza que eu tinha foi deixada no passado, junto com todas as boas lembranças.
Aquele reflexo me enojava, intensificando meu caráter autodestrutivo.
Num ímpeto,
abri meu armário e procurei um embrulho em papel pardo, atrás de todas as
roupas. Desembrulhei-o, e os cacos de vidro brilharam em minhas mãos. Alguns
ainda estavam sujos, outros apenas esperavam para serem usados. Escolhi o mais
pontiagudo dentre os que estavam limpos, e guardei o restante. Com movimentos
rápidos e precisos, mutilei minhas pernas repetidas vezes.
O vermelho
dominou meu corpo, junto com a dor. As antigas feridas nem estavam
cicatrizadas, e logo sofreram um novo ataque. Poucos compreendiam os motivos
para tal ato, mas eram tão simples: a dor física é suportável, plausível,
passageira. A dor espiritual tortura, destrói, corrói a alma. E, naquele
momento, eu precisava me machucar por fora para esquecer o que me machucava por
dentro.
Com um baque
surdo, despenquei. Aos poucos, meu raciocínio ficava mais lento e impreciso, e
minha visão mais turva. O chão era tão gélido perto da minha pele; coisa que eu
jamais percebera. Pode ser que aquele quarto estivesse realmente diferente:
mais frio, úmido e sufocante; ou talvez o olhar do inquilino é que tenha
mudado. As paredes ficavam tão nuas sem nossas fotos, ou seus desenhos, ou cada
pequena lembrança de nosso passado juntos. Sentiam sua ausência tanto quanto
eu, e pareciam gritar naquele silêncio que me ensurdecia. Escolhi
cuidadosamente o espaço mais limpo e, com os dedos ainda sujos de sangue, desenhei
a letra “A” com o fluido. “A” de anarquia. “A” de arrependimento. O “A” do seu
nome.
A musica
soava leve no ar, embebedando-me. Voltei minha atenção para meu peito, onde
pendia delicadamente um anel num colar. A fina circunferência dourada com um
cristal incrustado, que provavelmente te deu um belo trabalho para encontrar. O
que você me deu pouco antes do natal, junto com a velha máquina de escrever,
dizendo que nos uniria. Minha aliança. Ela continuava com o mesmo brilho do dia
em que me entregou aquela caixinha preta, enquanto que a sua estava
completamente corroída e opaca. Parecia até uma representação de nossos
sentimentos. Até nisso somos divergentes.
Levantei,
dessa vez mais decidida e possuída pela abstinência cada vez mais forte.
Caminhei vagarosamente até a pequena varanda, e encarei o céu. As estrelas
brilhavam longe: pequenos redutos de esperança distribuídos pela imensidão. Eu
já não tinha mais estrelas dentro de mim. Eu era um imenso buraco negro, uma
rua sem saída, uma doença sem cura. Eu era inteiramente sua. E você não era
mais meu.
Fui até o
parapeito e sentei-me na grade, com dificuldade para me equilibrar. O vento
batia em minhas pernas, esfriando-as. Meus pés balançavam enquanto encaravam o
abismo. O problema devia realmente ser comigo. Por qual outro motivo você me
deixaria sem explicação, de uma hora para outra? Afinal, eu não sou tão bonita
assim, não de perto pelo menos. Quanto mais as pessoas se aproximam, mais
percebem o quão feia eu sou por dentro. Será que você enxergou isso em mim? Você terminou comigo, mas eu não terminei de te amar.
Ou talvez eu tenha errado desde o começo, ao mergulhar em amores rasos demais. Não que isso importasse agora. Esses sentimentos eram roucos, duros, irritados, enérgicos, comprimidos há tanto tempo. Perderam o sentido, assim como minha existência. Ouvi as últimas notas do piano. Com lágrimas nos olhos, inclinei-me, mergulhando por uma ultima vez na escuridão, conseguindo, finalmente, te deixar para trás.
Ou talvez eu tenha errado desde o começo, ao mergulhar em amores rasos demais. Não que isso importasse agora. Esses sentimentos eram roucos, duros, irritados, enérgicos, comprimidos há tanto tempo. Perderam o sentido, assim como minha existência. Ouvi as últimas notas do piano. Com lágrimas nos olhos, inclinei-me, mergulhando por uma ultima vez na escuridão, conseguindo, finalmente, te deixar para trás.
Nenhum comentário:
Postar um comentário