Este texto é para meu melhor amigo, alguém querido que tive a oportunidade de conhecer. Vou começar do começo. Nem nos falávamos direito, tínhamos apenas alguns amigos em comum e isso era tudo. Então nos inscrevemos para as mesmas aulas eletivas e passamos a olhar o outro de uma forma diferente. De uma forma mais interessante, mais próxima.
Ele me achou uma sonhadora maluquinha, eu o achei intrigantemente reservado. Não sei se um elo foi criado, mas não era mais a mesma coisa entre nós. Éramos mais do que desconhecidos na mesma roda de amigos. Aos poucos, passamos a conversar e ele começou a me acompanhar até em casa. Imagine só, não queria que eu voltasse sozinha no escuro. Rapazes assim não são mais feitos.
E entre caminhadas e sorrisos trocados, decidimos dar uma chance para algo tão novo que nem havia nome. Não estávamos namorando mas estávamos juntos. Sem pressão, sem rótulos. Parecia bom até que isso se tornou um problema. As pessoas perguntavam e não tínhamos respostas.
Além disso, eu não fui justa com ele. Meu coração pertencia a outro garoto -levou muito tempo para eu perceber o quão imprestável ele era, mas tudo bem, todos temos que crescer uma hora- e não me entreguei da maneira que ele merecia. Para falar a verdade, fui uma megera. Implicava com as menores coisas, não valorizava o carinho que ele me dava. O encanto foi se perdendo no tempo.
Ele dizia gostar do meu mistério. Eu, uma jovem aspirante a escritora, com sonhos que transbordavam, tinha um mistério de que ele gostava. Gostaria de saber qual seria. Enfim, terminamos de um jeito ruim e paramos de nos falar.
No ano seguinte, caímos na mesma sala no colégio. De início, achei que fosse karma ou uma reviravolta do universo contra mim, mas não foi tão ruim assim. Participamos de um mesmo projeto em que fui líder e ele meu vice. Tínhamos que conversar o tempo todo para garantir o sucesso. Então retomamos a amizade com a mesma velocidade em que se cultiva uma flor: gradualmente, com carinho e paciência. Ele voltou a ser meu melhor amigo e porto seguro.
Enfim chegou o dia da nossa colação de grau. Estávamos todos tão felizes, o ciclo chegava ao fim e estávamos ali para celebrá-lo. Nos demos um abraço tão longo e apertado depois de toda aquela cerimônia...parecia que nenhum de nós queria soltar aquele doce conforto. Fiquei com isso gravado na memória.
Assim como o dia em que saiu a lista de chamada de uma faculdade que ambos havíamos prestado. Esperamos juntos, comemoramos juntos. Com as pernas apoiadas em seu colo e meus dedos entrelaçados aos dele, esperamos pelo momento em que pintariam nossos rostos e nos dariam os parabéns. Foi um dia tão feliz.
A festa de formatura também foi. É dela que me lembro mais. Passei um bom tempo me arrumando, queria estar bonita. Ao contrário do que muitos pensavam, eu estava bem e queria aproveitar a noite -o mesmo rapaz imprestável de antes foi novamente ridículo comigo- e aquele seria o momento perfeito para pensar em outra coisa. Decidi beber, algo que nunca fazia, e já estava rindo sozinha quando ele chegou. Fomos até o bar e ele entrelaçou seu braço em minha cintura. Era tão boa a sensação de estar novamente em seu abraço.
Não pensei nas consequências e passamos aquela noite como um casal: dançamos, nos beijamos, cantamos e rimos alto. Não importavam os olhares que nos eram dirigidos, estávamos bem. O dia seguinte foi o problema.
Sem dormir direito, só pensava em falar com ele e resolver as coisas. Eu estava animada para as novas oportunidades. Mas recebi como resposta que não devíamos esquecer o que aconteceu, mas também não era hora de nos apressarmos. Caramba, como aquilo magoou. Talvez eu esperasse um final feliz, mas como pedir isso? Eu o magoei tanto no passado. Enfim, não nos falamos desde esse dia.
Agora, com todo o resto acontecendo, me pego pensando no quanto ele faz falta. Sim, sinto saudades, mas não sei como lhe dizer tal coisa. Também tenho medo da rejeição. Restou apenas ver os snaps que ele posta e lembrar dos momentos bons que ficaram gravados na memória. Às vezes eles aparecem nos sonhos. E tudo o que eu me pergunto é se ele pensou em mim depois do que aconteceu.
Eis aí meu mistério. Por baixo da postura austera e olhar introspectivo, tenho os medos mais infantis que uma garota pode ter. Imagine só. Acho que me apoixonei por meu melhor amigo, mas não sei lidar com isso de uma forma melhor.
Tudo isso foi apenas uma confissão que não foi feita anteriormente. Talvez eu precisasse admitir. Tenho saudades.
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