- Nossa comunicação regride mais e mais a cada dia- diz, encarando-me com sua imensidão verde.
- Tenho dificuldade em conversar com alguém que diz não me querer em sua vida, retruco séria.
- Realmente disse isso em agosto- pela primeira vez, as lágrimas escorrem de seus olhos, e nãos dos meus.
- Agora é diferente. Eu não quero mais nada- depois dessa, o prêmio de mentirosa do ano será meu.
Desconfortáveis, olhamos para nossos próprios pés, pedindo para que o tempo passasse mais rápido. Aquela situação era insuportável, ainda mais depois dos últimos ocorridos.
- A culpa é minha. Nunca soube te cuidar, não fui bom para você- disse, sem coragem de encarar meus olhos.
Minhas sobrancelhas arquearam e fiquei indignada. Não estava certo. A culpa foi de nós dois, respondi. Nunca fui o exemplo de boa companheira. Apenas no dia seguinte me daria conta de que era a primeira vez que ele não me culpava pelos erros cometidos.
Ficamos sem graça, nenhum de nós esperava uma conversa profunda. As palavras não vinham e o incômodo espantava as poucas sobreviventes. Estávamos nos perdendo.
- Podemos ao menos manter a pacificidade?
- Não, disse. Óbvio que eu seria fria e grossa. Mas para falar a verdade, não seria mesmo possível. Jamais conseguiria fingir que está tudo bem, e até mesmo ter a pretenção de manter um diálogo saudável com o garoto que tem a chave de meu coração.
Balançou a cabeça, aceitou minha resposta. Por que ele sempre desiste de lutar e aceita? Desviava o olhar para mim e novamente para o chão. Queria me dizer algo, mas não sabia como. Eu podia ler as legendas de seu silêncio.
- Sinto falta de nosso mundo mágico, finalmente admitiu. Éramos felizes.
Sim, éramos mesmo. Beijei-o em resposta. Não havia nada a dizer.
Encarou-me, surpreso. Não esperava tal reação. Então nos beijamos do único jeito que sabíamos: de modo amargo, desesperado, tínhamos pressa de amar. Nunca soubemos apreciar os segundos, não seria diferente naquele momento.
Nos afastamos, mas não o suficiente. Estávamos inundados do outro, como nos velhos tempos. Afogaria-me nele todos os dias, se pudesse.
- Vamos embora, sussurrou. O hálito quente tocava minha face de forma suave, a esperança permanecia em sua voz.
- Para onde?
- Para longe. Qualquer lugar, não importa. Apenas vamos.
Olhei-o, surpresa. Não sabia qual era sua proposta, efetivamente. Seria um "para sempre" ou apenas uma aventura com prazo de validade? Seríamos só nós? Mas e o medo e a vergonha que antes o cercavam, simplesmente sumiram?
- Vamos.
Naquela mesma noite, entramos num carro com pouca bagagem nas mãos. Não tínhamos mapa ou destino certo, iríamos apenas dirigir pelas estradas existentes. Talvez ouvíssemos algum CD antigo, ou ficássemos apenas conversando na penumbra. Mesmo errados, estávamos finalmente juntos. Iríamos em frente, sem olhar para trás.
"Uma vez eu disse que te amaria para sempre. Estou apenas cumprindo minha promessa."
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